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Comportamento Mediúnico: Nós os Médiuns, eles os Guias

Mediante a alguns questionamentos levantamos um assunto de curiosidade e estudo em comum, qual nossa relação com nossos guias? Como eles chegaram até nós (ou nós chegamos até eles)? Diversas outras questões que ainda buscamos resposta. Encontramos nesse texto alguns esclarecimentos e muita coisa para refletir.

Será que estamos olhando para eles e enxergando o propósito real deles estarem conosco?Ou estamos apenas os usando como um meio para saciar nossos desejos e vontades, ou porque somos médiuns  e nos achamos tão importantes por tê-los conosco, com uma dose de vaidade e arrogância.

Muitas vezes o médium vai para um terreiro, no começo é aquela empolgação, e com o tempo para alguns vira algo mecânico, sempre os mesmos ritos, sempre as mesmas posturas, como se não tivesse nada além da rotina. É como se perdessem o up de estar ali, virou uma obrigação não uma devoção, uma fé a ser praticada.

Será que é assim mesmo? ou se está se esquecendo de enxergar o que é invisível aos olhos, desaprendendo a sentir.

Já ouvi inúmeras vezes pessoas dizendo assim:

“… quer lotar terreiro, faz um trabalho de exú, com comes e bebes,…”,  “… trabalho de preto velho, é muito cansativo, demora demais, e quase ninguém aparece…”, será que uma pessoa que fala algo nesse sentido ou semelhante a isso, realmente entende a religião que pratica, conhece as entidades com profundidade, eu honestamente acredito que não. Alguns valores estão se perdendo, e as pessoas pouco se importando com que tipo de energias estão se canalizando.

Cada gira tem sua importância, seus fundamentos, missões e propósitos.

Mas o que há por detrás de cada espírito, que se apresenta como uma entidade de Umbanda? será que está se tendo o cuidado necessário, ou se está se limitando a observar apenas a roupagem. Será que a credulidade não está se tornando uma fraqueza, principalmente quando o médium obedece cegamente sem avaliar as mensagens recebidas.

Nossos médiuns estão tendo critérios de avaliar o que é certo do que é errado? no ponto onde estão se  colocando num papel participativo, de consentir, ao ponto de se envolverem em determinados trabalhos, será que estão tendo ciência e mensurando as leis de causa e efeito com propriedade e seriedade. Ou será que estão tendo a ilusão que não terão sua parcela de envolvimento. Tipo… meu guia tá fazendo tal coisa e eu não tenho culpa. Será?

Muitos médiuns levam verdadeiros tapas de luva de pelica em suas vidas, onde recebem a repercussão de seus atos como médiuns, a lição é dada e caso não se aprenda há de se repetir. Simples assim.

Será mesmo que todo guia que se apresenta como a entidade X, será mesmo que  é tal entidade? Muito cuidado com isso, já foi ditologoumbanda3 por ns. vezes que mistificadores, e quiumbas adoram médiuns vaidosos, gananciosos e adoram brincar com seus egos inflados.

A algumas posturas que jamais entidades idôneas iriam expor seus médiuns. Já vi preto velho ameaçando de morte filhos de santo, entidades fazendo médiuns beijarem seus pés e sentando em cima deles como verdadeiros serviçais, Exús e Pombogiras machucando médiuns, detalhe são posturas para alguns aparentemente normais, aplaudidos de pé. Mas que não são.

A impressão que se passa que as pessoas não querem enxergar o óbvio, simplesmente por comodismo e mesmo conveniência. Ou pelo menos quando não for com eles. Sabe o detalhe, pimenta no olho do outro é refresco, quase isso.

Será que  nossos médiuns estão sabendo reconhecer seus próprios guias, suas importâncias em suas vidas, será que estão conseguindo observar suas mensagens, seus conselhos, ou se está entrando pelo um ouvido e saindo pelo outro. Ou o ego só está deixando passar elogios? Pensem.

Porque será que uma entidade X escolhe um determinado médium? Já pararam para pensar qual a ligação de suas entidades com vocês? Porque meu caboclo me escolheu, ou meu preto velho ou será que é por sorteio, aleatório? claro que não. Muitos guias já nos acompanham de várias reencarnações.

Quando você for para seu trabalho de preto velho por exemplo ou qualquer outra linha, pense sobre isso porque eu tenho tal guia comigo, porque ele me escolheu ou foi eu quem o escolhi?

Ás vezes é importante não só pedir a caridade deles para conosco, mas se colocar a disposição deles com a nossa caridade, as vezes é bom fazer essa sintonização com eles, o que eles esperam de nós? A gente sempre espera muito deles e acabamos por nos esquecer de nossa responsabilidade para com eles.

O que muitos médiuns precisam entender que muitos guias, mentores, entidades tiveram e participaram conosco de processos de reencarnação, muitos viveram conosco em outras vidas, muitos foram nossos mentores e instrutores no pós morte, muitos podem estar conosco para nos ensinar sobre questões de resgates, redenções, troca.

Já pararam para pensar que pode haver entre eles, alguns que foram  inimigos de outras vidas que através da lei do perdão e redenção hoje vem em missões espirituais conosco.

Da mesma forma que um inimigo pode vir como um filho nessa vida para haver a troca de amor, e aprenderem a se amar, porque não uma entidade para preencher o tempo perdido. Interessante, quando analisamos com profundidade certas questões.

Uma preta velha pode ter tido uma experiência com sua médium onde ela em outra vida foi sua Sinhá, e hoje trabalham juntas para que uma ajude a outra em seus processos de evolução, perdão e redenção.preto_velho

Um outro ponto interessante, nossos guias também aprendem conosco, eles levam muito de nós e deixam muito deles.

Um Exu ou uma Pombogira pode ter resgates cármicos com seus médiuns, podem ter passado por experiências juntos em outras vidas.

Muitos de nós tem herança indígena, quem nos garante que um de nossos caboclos não foi um pai ou mesmo uma mãe nossa em outra vida.

Alguns médiuns já ouviram de seus guias que os mesmos já o acompanham de outras vidas.

Precisamos olhar para nossas entidades com mais amor, carinho, atenção e devoção.

Muitas vezes nos esquecemos que para chegarem onde estão tiveram muito trabalho, muita lapidação, redenção e sofrimento, eles não chegaram onde estão de mão beijada, tiveram muito trabalho, e olha que interessante  escolheram nós para seus pupilos (que bacana, não é?) e o que a gente faz muitas vezes? a gente passa dos limites, pisa na bola, com nossas vaidades, fantasias arrogâncias e egos desmedidos,  e se esquecemos que isso é um privilégio, e devemos ser gratos por eles acreditarem em nós, por eles terem fé em nossa capacidade. Devemos nos lembrar de honrá-los e não decepcioná-los.

É muito comum ouvir de um médium, “…nossa quando trabalho com meu caboclo eu me sinto tão bem…”, outros até dizem, “… nossa sinto uma saudade quando o Pai ou a Mãe no Santo não chama uma determinada linha, parece que fica um vazio dentro de mim…”, esse vazio é pela falta inconsciente que alguns médiuns tem, é como uma mãe que mora longe, e você fica muito tempo sem estar com ela. As vezes sentimos falta do que deixamos em outros planos. Saudade pura e simples de estar com eles.

O médium ele precisa olhar para seu guia com mais profundidade, observando além das aparências, tem guias que são mais rigorosos, disciplinadores, doutrinadores, e a gente fala nossa tal guia meu é bravo, é chato, porque será que justo aquele guia é aquele que pega no pé? pois é, com certeza é porque a missão dele é justamente essa para conosco, a disciplina, te trazer princípios doutrinários.

Por isso não se queixe, cada pupilo tem o mestre que merece. 

Os médiuns mais antigos de tradições mais antigas de Umbanda, não se preocupavam com status de suas entidades, se tinham sido reis, rainhas, princesas etc…, eles se colocavam na postura de simples aparelhos de seus guias, eram passivos no sentido de não interferirem, e nesse tempo muitas entidades excelentes se manifestavam, faziam suas curas, e ninguém fazia diferenças, devido a seus nomes se eram conhecidos ou não, se tinham sido pessoas da alta sociedade, na realidade nem havia isso entre as próprias entidades, os próprios caciques, não se auto davam títulos. E mesmo quando uma entidade se auto denominava assim, no lugar do médium ficar com aquele ar metido a besta (risos), eles tinha medo, isso mesmo… medo de errar com eles.

Infelizmente não é mais assim hoje em dia, hoje me parece que se o guia não se apresentar com um nome famoso ou título parece que não tem valor, talvez seja pelo excesso anímico, fantasias de muitos médiuns hoje em dia, tanto o é, que muitas entidades viraram artigo raro de ser ver nos terreiros, talvez porque os médiuns de hoje em dia não os conheça, nem sabem seus nomes. Percebam como é sério isso, e cabe ao dirigente observar com muito cuidado esse desvio de seus médiuns,  o qual tem se tornado  um grave problema. Lembremos que muitos de nossos guias e entidades tiveram vidas bem comuns.

Onde foram parar as antigas entidades, os antigos guias e mentores, será que se aposentaram, cumpriram suas missões? ou será simplesmente que está se faltando mais médiuns sérios e sensatos.

Quando você médium olhar para um gira de preto velho por exemplo, procure enxergar além da roupagem física aparente, observe com cautela a personalidade de cada guia ali trabalhando e prestando a caridade, as vezes em pequenos gestos observamos muita coisa de um determinado espírito atuando. E saibam que trabalho de preto velho é uma verdadeira aula de sabedoria.

Nas rodas de caboclo, olhem e observem o formato de suas danças, como em cada gesto, vão simbolizando o culto e louvor a natureza, a lembrança a seus ancestrais, se deixem envolver na roda de fogo de Oxóssi, na roda de cura, no poder de suas ervas, simplesmente deixe se elevar.

Na Linha do Povo D.água, nos cantos e mantras de mãe d.água, deixe fluir, penetrar, se eleve, se deixe levar no silêncio das profundezas das águas dos rios e mares, se deixe purificar.

Sinta a cultura que envolve cada linha, cada falangeiro e caboclo, observe seus ensinamentos, eles viveram como eu e você, a única coisa que nos separa é uma linha tênue, e os planos sutis de suas existências espirituais.

Vejam como somos abençoados por tê-los em nossa trajetória e como tudo seria mais difícil sem eles por perto. Gratidão! Gratidão! a Benção hoje e sempre. Axé.

Hoje os médiuns tem que se policiarem, se auto questionarem, se darem valor, evitarem de se envolver em verdadeiros antros, não fazerem de seus oris uma bola de boliche, um joguete nas mãos daqueles que se dizem terreiros de Umbanda, mas que desconhecem o que seja, SE DEEM AO RESPEITO. Não joguem o nome de seus guias e os vossos no lixo. Simples assim.

Um médium sério procura uma casa idônea para trabalhar e não um lugar para ostentar suas vaidades e fantasias, encher a cara, se sentindo os próprios donos do cabaré. Alguns médiuns parecem não mensurar o quão lamentável é isso. Entidade idônea não faz de seu médium copo vivo. 

Nada contra a boas festas desde que não usem de espíritos para camuflarem suas vaidades enrustidas e usem de nomes de entidades idôneas para saciar suas fantasias. Terreiro de Umbanda não é escola de samba, não é picadeiro e muito menos teatro.

Entendam bem nenhuma entidade que passou por sofrimentos, por resgates cármicos pesados, que levou anos para alcançar sua redenção e doutrinação, vai querer que seu médium passe pelo mesmo, para isso o médium é seu pupilo, porque deve se entender por guia um espírito que tenha um grau evolutivo acima. Fora disso, opa lá, tem algo muito errado.  Lembremos disso.

O médium ele deve estar atento, muitas entidades quando palestram a seus médiuns e seus consulentes, com suas histórias sempre trazem algo a mais, sempre nos ensinam, sempre deixam tanto deles.

Como diz uma cantiga, “…No calar da Noite tem um Exu ele não dorme, ele vigia…”.

Para bom entender um pingo é letra.

Que nossos guias nos perdoem, e nos auxiliem a sermos cada dia melhores, na pratica do Amor e da Caridade, que nunca lhes falte sua benevolência e sagrada paciência para conosco.

Tudo passará, e quando chegar a nossa hora, que tenhamos mais honra do que vergonha.

Texto por: Cristina Alves

Templo de Umbanda Ogum 7 Ondas e Cabocla Jupira.

Fonte: https://orixaessenciadivina.wordpress.com/2016/09/03/nos-os-mediuns-eles-os-guias/

 

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Baianos – Desmistificando Entidades

A LINHA DOS BAIANOS

A Linha dos Baianos da Umbanda engloba espíritos de antigos Sacerdotes da Bahia e de outras regiões, tendo a Regência direta do Orixá Yansã. Também tem uma ligação com os Orixás Oxalá e Oyá-Tempo, já que seu Arquétipo (Sacerdotes) diz respeito a questões da Fé e da Religiosidade.

Esta Linha foi criada justamente para homenagear os antigos Pais e Mães no Santo da Bahia, que foram os primeiros a trabalhar, e muito, para a preservação e a divulgação do culto aos Orixás em nosso país e enfrentando, à época, toda sorte de dificuldades e preconceitos.

A Linha engloba espíritos voltados para a missão sacerdotal ligados não são à Bahia, mas a todo o Nordeste do nosso país. Muitos viveram ou passaram parte de sua vida em Estados dessa região, em contato com os Mestres do Catimbó e da Pajelança.

Manifestam-se de forma alegre e movimentada e gostam de uma boa conversa. São firmes, parecem “feitos de fé”. E não se cansam de louvar “o Senhor do Bonfim”…

O Povo Baiano vem ao Terreiro para nos trazer seu axé, sua energia positiva, e têm muito a nos ensinar, sempre com uma resposta certeira e rápida para as nossas dúvidas e questionamentos.

Na sua forma de trabalhar, trazem muito das qualidades de Mãe Yansã: são bastante ativos, movimentadores, irrequietos, despachados e descontraídos. Sua dança tem movimentos característicos, com gingados, “pisadas” e giros que dissolvem as energias densas acumuladas no ambiente e nas pessoas.

Também são bons orientadores e doutrinadores, porque a missão sacerdotal do seu Arquétipo tem ligação com Pai Oxalá e Mãe Oyá-Tempo (Fé e Religiosidade). Sabem ouvir, dar bons conselhos e levantar o ânimo dos entristecidos. Neste caso, conversam bastante, falando baixo e mansamente, transmitindo conforto e segurança ao consulente. São consoladores por natureza.

Os Baianos nos contagiam com suas energias de alegria e de firmeza e nos ensinam a perseverar diante dos obstáculos, através da sua magia peculiar e das suas brincadeiras sadias. Médiuns introspectivos, quando incorporados de seu Baiano (ou Baiana) acabam se libertando e demonstrando alegria e descontração.

E todos nós podemos aprender com os Baianos. Seu magnetismo é forte. São “decididos” ao ponto de nos fazer sentir mais leves e animados. O que nos leva a tomar um novo rumo na vida e a obter conquistas espirituais e materiais.

Os Baianos nos ensinam muitas coisas. Seu magnetismo, entre outras coisas, estimula cada pessoa a não estagnar diante dos problemas, a não lastimar, mas agradecer pela vida e ir em frente; a confiar em si e na Providência Divina e montar um plano de ação para começar a resolver pendências; a cuidar bem de si mesmo, manter bons sentimentos e pensamentos firmes, através de orações, banhos, rezas etc. (reza de Baiano é infalível!…); não olhar só “pro umbigo”, ou seja, fazer alguma coisa em benefício dos mais necessitados, e lembrando que a maior ajuda é saber ouvir com respeito, dar uma boa palavra, fazer uma oração na intenção do necessitado; etc.

Por outro lado, os Baianos admiram a disciplina e a organização dos trabalhos. Sabem “dar disciplina” de forma direta, quando preciso, até porque a Linha tem a Regência de Mãe Yansã. São poderosos aliados da Umbanda e nos ajudarão em tudo o que for permitido pela Lei Divina. Mas desde que a pessoa não tenha má índole. Porque Baiano “não tem osso na língua” e diz o que tem a dizer, quer a gente goste ou não. Seu objetivo é nos ajudar a manter uma conduta reta na vida, para que a Lei e a Justiça Divinas nos amparem. Baiano é alegre, Baiano brinca. Mas também sabe falar sério, e nessas horas não corta caminho, vai direto ao ponto…

Bons conhecedores da Magia, eles atuam fortemente na quebra de magias negativas, na desobsessão e na limpeza energética.

Suas oferendas podem ser feitas ao pé de um coqueiro ou palmeira, ou então no ponto de força do Orixá que os rege mais especificamente.

Preferem os colares feitos de pedaços de coco seco e/ou de coquinhos e/ou de sementes (olho de boi, olho de cabra). Alguns intercalam búzios, pedras e mesmo contas de porcelana ou de cristal.

Origens da Linha dos Baianos

No Astral se organizaram, pouco a pouco, as Linhas de Trabalho Espiritual da Umbanda, a partir dos arquétipos do povo brasileiro. A de Caboclo homenageava o guerreiro nativo e forte, conhecedor da Natureza, corajoso; a de Preto Velho destacava a sabedoria, paciência, bondade e humildade dos anciãos que vieram da Mãe África; a das Crianças nos remetia à pureza infantil e à necessidade de despertá-la em nosso íntimo, bem como à valorização da infância e dos seus cuidados.

Novas Linhas foram se apresentando gradualmente, inclusive respondendo às mais novas e crescentes necessidades do nosso meio, já que toda essa estrutura de Trabalho Espiritual da Umbanda está voltada para a evolução da nossa humanidade e dos seres afins com a nossa realidade. Os Regentes Planetários fizeram por acompanhar as mudanças do nosso meio social e atender às necessidades humanas e, principalmente, humanitárias que delas emergiam. E não poderia ser de outra forma, pois a Umbanda é uma religião BRASILEIRA e reflete os valores culturais e religiosos do nosso povo.

Assim, a cada Gira de Umbanda manifestam-se as diferentes qualidades, habilidades e saberes ancestrais desse nosso povo multicultural.

A Linha dos Baianos, também chamada “Povo da Bahia”, traz uma referência ao início da descoberta do país, à colonização e às origens de um povo que é “a cara do Brasil”. A Bahia e seu povo sintetizam o grande “caldeirão” de diversidades que é o Brasil, seja quanto às origens dos povos que aqui vivem e convivem pacificamente, seja quanto aos seus valores culturais e religiosos etc. Com efeito, o povo baiano é fraterno, universalista, devoto, fervoroso, persistente, alegre, festeiro, cheio de ginga, de ritmo e magia. E a Linha reflete tudo isso.

De maneira organizada, como uma Linha de Trabalho efetiva, os Baianos surgem a partir da década de 50, com a industrialização dos grandes centros, e especialmente em São Paulo. Isto se intensifica na década de 60, com a maior onda de migrações provenientes da grande seca que acometeu o Nordeste brasileiro.

Nas décadas de 50 e 60, ao mesmo tempo em que a Umbanda se firmava em São Paulo, crescia o fluxo migratório do Nordeste, que acabou por transformar a cidade numa das maiores metrópoles do mundo. Nesse grande fluxo destacaram-se os Nordestinos que vieram para trabalhar na construção civil e na indústria automobilística, então em franca expansão.

Popularmente, na cidade de São Paulo o Nordestino sempre foi associado ao trabalho duro, à pobreza e ao analfabetismo, restando-lhe os bairros mais periféricos e as regiões mais precárias para morar. Com todos os problemas decorrentes do exagerado crescimento populacional, sempre se buscou um “culpado”; e todos se voltaram contra o “intruso”, o “ignorante” Nordestino. Todo Nordestino passou a ser chamado de “baiano”, mas com um caráter discriminatório terrível, pejorativo e negativo.

No entanto, nos Terreiros de Umbanda paulistas a Linha dos Baianos conseguiu alcançar grande popularidade. A Umbanda sempre se caracterizou por abrigar espíritos de diversas correntes, de modo que essas Entidades “Nordestinas” foram sempre muito bem acolhidas. O caráter de luta e irreverência do Nordestino migrante parece ter sido o fator mais importante para sua aceitação dentro dos Terreiros.

Sob esse aspecto social, a Linha dos Baianos reflete também o arquétipo do rural migrado e já adaptado à zona urbana; e vai servir de ponte para os migrantes, através de sua semelhante identidade. Num primeiro momento talvez, os consulentes de origem Nordestina foram os que mais se identificaram com o jeito despojado e alegre desses Espíritos “conterrâneos”. Pouco a pouco, pessoas de todas as origens se deixaram envolver pelo carisma e o magnetismo dessas Entidades.

A Linha dos Baianos se manifesta desta forma justamente para ter um canal de aproximação, uma ponte de contato conosco, remetendo nosso pensamento a um arquétipo: o de um povo cujas lutas, sofrimentos e superações nós bem conhecemos e admiramos.

Desta forma os Baianos nos conquistam, desarmam nossas defesas emocionais e mentais, sintonizam fraternamente conosco e então conseguem auxiliar a nossa evolução espiritual e material, empregando seu cabedal de conhecimentos e elevação.

Durante muitos anos a Linha dos Baianos foi meio que renegada, seus trabalhos eram vistos com restrições. Dizia-se que era “inexistente”, não estava ligada às Linhas principais (Caboclo, Preto-Velho, Criança) e que só espíritos zombeteiros e mistificadores estariam ali.

Aos poucos, porém, os Baianos foram chegando e tomando conta do espaço que o Astral lhes concedeu, e que souberam aproveitar de forma exemplar. Hoje, são trabalhadores incansáveis e respeitados.

É cada vez maior o número de Baianos que se manifestam nos Terreiros de Umbanda, onde atuam sob o amparo das Sete Irradiações Divinas, para movimentar, direcionar e reordenar os campos da Fé, do Amor, do Conhecimento, da Justiça, da Lei, da Evolução e da Geração. Por isso encontramos Baianos (e Baianas) de todos os Orixás. Têm, ainda, um trânsito muito bom pelos caminhos de Exu, podendo trabalhar na Esquerda no momento em que isto se torne necessário. Vale lembrar que nem todos os Baianos que se manifestam na Umbanda realmente o foram em encarnações passadas. Como ocorre em todas as Linhas de Trabalho da Umbanda, esses espíritos agruparam-se por afinidades energéticas e especialidades de atuação, mas dentre eles há múltiplas origens.

Há, no entanto, os que ainda não aceitam a Linha dos Baianos como vertente Umbandista; esquecendo-se, talvez, de que a Bahia foi “o celeiro dos Orixás”, uma terra de espiritualidade e magia. O povo baiano é sincrético e ecumênico por excelência.

No Nordeste, e especialmente na Bahia, prevaleceu a influência dos povos Nagôs, de língua Iorubá, sobre todos os outros grupos de Povos Africanos que para cá vieram, ao tempo da escravidão. E justamente os Nagôs cultuavam Orixás, ali nos deixando esta herança. Com o tempo, e por força da convivência das várias Nações Africanas, nasce o Candomblé, uma religião afro-brasileira. A Bahia cultua os Orixás, mas também reverencia o Senhor do Bonfim e os Santos católicos, pois no coração desse povo há mansidão, devoção e abertura para a Espiritualidade. E a Umbanda, que nasceu depois e já como religião brasileira, bebeu dessa fonte, além de receber influências indígenas, europeias, do Catolicismo e do Espiritismo.

Mas é na Bahia ―e só na Bahia, onde mais?― que todo ano se faz um cortejo de baianas e de devotos do Candomblé e da Umbanda, lado a lado com fiéis católicos e de outras crenças e religiões, para lavar com água de cheiro a escadaria da Igreja do Senhor do Bonfim, de forma delicada e amorosa, degrau por degrau. Todos se unem para pedir bênçãos e agradecer. Quem já viu, sabe que não há palavras que traduzam isto…    Nada mais natural que a Bahia, seus valorosos Pais e Mães no Santo e seu povo tenham sido escolhidos para essa homenagem!…

Não podemos nos esquecer do caráter Universalista da Umbanda, que em suas fileiras recebe e abraça a todos os espíritos que desejam praticar o Bem, independente das suas “origens” e da forma como se apresentam.

As palavras do Senhor Caboclo das Sete Encruzilhadas, ao fundar a religião no plano Terra, foram justamente no sentido de que na Umbanda os espíritos mais sábios nos ensinariam; os menos esclarecidos seriam orientados; e a ninguém seria negada uma oportunidade de manifestação, de trabalho, ou de aprendizado.

Quando um Baiano (ou Baiana) incorpora num médium e ouve, aconselha e direciona o consulente em sofrimento, ele está fazendo mais do que isto. Está mostrando que cada Povo tem seu valor, sua bagagem moral e cultural, seus valores religiosos e a “sua” maneira de fazer o Bem e que todos podem contribuir para o progresso comum. Acima de tudo, mostram que somos diferentes, mas isso não é ruim, pois o que de fato importa são os valores que carregamos no íntimo. E assim quebram-se preconceitos… E sem alarde e sem armas de guerra…

Isto se chama Fraternidade. Em silêncio e de forma simples, os Guias da Umbanda nos ensinam e auxiliam muito mais do que podemos imaginar, porque nos revelam que somos parte de uma única “raça”: a Raça Universal dos Filhos de Deus…

Salve os Baianos! Salve a Bahia de Todos os Santos!

Nomes simbólicos:

Alguns Baianos: Simão do Bonfim, Januário, Zé do Ouro, Juvêncio, Juvenal, Mané Baiano, Zé Baiano, Zé da Estrada, Zé da Estrada e dos Trilhos, Zé Tenório, Zé do Côco, Zé Pereira, Zeca do Côco, Zé Pretinho, Zézinho Baiano, Baiano dos Sete Cocos, Chico Baiano, Serafim, João Baiano, Severino da Bahia, Joaquim Baiano, Zé da Lua, João do Coqueiro, Zé do Berimbau, Zé do Prado.

Dentro desta Linha, em algumas Casas  também se manifesta a Entidade Zé Pelintra (que em outros Terreiros vem na Linha de Malandros, ou mesmo na Linha de Esquerda, pois é um Espírito que tem peculiaridades e acesso a vários graus vibratórios).

A LINHA DOS BAIANOS

Fonte: “Arquétipos da Umbanda”, Rubens Saraceni, Madras Editora, 2007, páginas 103/105.

Nos Cultos de Nação ou Candomblé existe um culto fechado denominado culto a Egungun, que tem poucos adeptos e seu interior não é revelado, pois tudo é secreto e as proibições, se quebradas, acarretam “quizilas” terríveis aos seus inconfidentes. [Inconfidentes= os que não são fiéis.]

No Brasil, o culto a Egungun é restrito a algumas sociedades antigas e que preservaram o que foi possível do culto que existia na África. Egun é uma palavra da língua Yorubá que significa espírito. Egungun é o conjunto dos ancestrais. E o culto a Egungun é o culto aos espíritos. [V. “As Religiões do Rio”, páginas 68/75.]

O culto a Egungun é um ritual mais elaborado do tradicional culto aos ancestrais, praticado por todos os povos em todos os tempos.

A Bíblia judaico-cristã fala do culto aos ancestrais e das pessoas dotadas de dons mediúnicos (os “profetas”); na Roma antiga os “deuses lares” eram os protetores das famílias, que cultuavam seus antepassados e buscavam nos seus membros de maior destaque, já falecidos, a inspiração para as mais variadas dificuldades; os orientais (chineses, japoneses, etc.) cultuam seus ancestrais e têm ritos específicos para agradá-los, atraí-los e deles receberem amparo espiritual.

O espiritismo kardecista está fundamentado no culto aos mortos, pois Jesus Cristo foi um homem que viveu na Terra há dois mil anos; e os espíritos que se comunicam também já viveram na terra.

O próprio Cristianismo é um culto aos mortos, pois seu fundador, Jesus Cristo, é um espírito; e o culto aos santos confirma nossas afirmações.

A Umbanda não foge à regra: cultua Deus e venera seus antepassados ilustres, devotando-lhes respeito e uma reverência religiosa, pois sem a existência do antepassado nós não existiríamos.

O culto aos antepassados é tão forte e tão poderoso que a presença deles na forma de heróis nacionais exalta o patriotismo que sustenta os brios de uma Nação.

Zumbi dos Palmares lutou contra a escravidão e a supremacia dos europeus, atraindo o apôio dos nativos brasileiros em sua luta por liberdade.

Tiradentes nos remete ao exercício do livre arbítrio, ao direito de nos guiarmos.

Dom Pedro I nos trouxe a tão almejada independência.

A Princesa Isabel sacramentou o anseio de milhões de brasileiros de verem livres da escravidão os africanos e seus descendentes.

O Marechal Hermes da Fonseca sacramentou a República e concedeu a todos o direito de se apresentarem como pretendentes a cargos de direção ou políticos, quebrando a espinha dorsal do regime imperial.

Lampião lutou contra o coronelismo nordestino.

Zé Pelintra foi um grande mestre de Catimbó, juremeiro e rezador dos bons!

Enfim, os antepassados são importantes e são nossa memória!

Eis aí o que justifica e fundamenta o arquétipo adotado para a linha dos Baianos da Umbanda: o culto aos antepassados ou a Egungun.

Só que, na Umbanda, os “eguns” [=espíritos dos antepassados] se mostram como lhes foi determinado. Uns são espíritos de índios. Outros são espíritos de velhos benzedores negros que misturavam rezas a Jesus Cristo e aos santos com o culto às divindades africanas.

Quanto aos Baianos da Umbanda, o arquétipo é o do tradicional “pai e mãe de santo da Bahia”, mas não só de lá, e sim, de todos os recantos do país.

Afinal, assim como o Espiritismo, o Candomblé e todas as outras religiões cultuam seus ancestrais ilustres em todos os campos das atividades humanas, qual é o problema em se cultuar na Umbanda a figura alegre, curiosa, intrometida e extrovertida dos sacerdotes dos Orixás na Bahia de todos os Santos?

O arquétipo dos Baianos da Umbanda foi criado justamente em cima daqueles que melhor sustentaram e popularizaram o culto aos Orixás no Brasil.

Esses espíritos já tinham a “intimidade” com os Orixás, suas magias, suas rezas, suas quizilas, seus feitiços etc., e foram homenageados com uma Linha de Trabalho só para eles, por meio da qual podem auxiliar os encarnados, dando continuidade aos que já faziam quando viveram na Terra.

A Umbanda é tal como o Espiritismo, um culto fundamentado no culto aos antepassados e é um culto a Egungun mais elaborado e totalmente aberto.

O que é oculto são os nomes dos espíritos que incorporam: Zé do Coco, Maria Bonita, Lampião, Zé Pelintra, Corisco, Zé da Bahia, etc.

São nomes que, na Umbanda, englobam várias correntes espirituais formadas por sacerdotes, mestres e rezadores nordestinos.

Quinhentos anos [da história do Brasil] é muito tempo e no astral cristalizou-se toda uma plêiade de espíritos fortes, aguerridos e capazes de proezas dignas dos grandes heróis nacionais.

Só que, nas Linhas de Umbanda, se manifestam os heróis desconhecidos, englobados em arquétipos fortes porque são espíritos que, quando na Terra e encarnados, dedicaram suas vidas no anônimo trabalho de consolar e amparar os aflitos e os desesperançados.

A Linha dos Baianos é essa Linha: a dos heróis anônimos que sustentaram o culto aos Orixás e o semearam primeiro em solo baiano e, posteriormente, no resto do Brasil e, com a Umbanda organizada, o levarão ao mundo.